Justiça da Paraíba arquiva inquérito sobre morte de jovem atacado por leoa em recinto de zoológico
11/03/2026
(Foto: Reprodução) Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morreu após entrar na recinto de uma leoa na Paraíba.
Reprodução
A 1ª Vara Regional de Garantias arquivou o inquérito que investigava a morte do jovem Gerson de Melo após entrar em uma recinto e ser atacado por uma leoa no Parque Arruda Câmara, conhecido como "Bica", em João Pessoa, no ano passado. A decisão foi proferida pela juíza Michelini Jatobá e o g1 teve acesso nesta quarta-feira (11).
De acordo com a decisão, que seguiu indicação do Ministério Público da Paraíba (MPPB) pelo arquivamento, o jovem entrou voluntariamente no recinto, ignorou avisos de guardas e pessoas no local. A Justiça não enxergou crime de terceiros ou de agentes públicos no caso.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp
Também na decisão, foi citado que Gerson entrou no recinto da leoa usando uma árvore após escalar barreiras de proteção do local.
Sobre o inquérito, a juíza disse que a 2ª Delegacia Distrital de João Pessoa ouviu guardas municipais que presenciaram o fato, funcionários do parque, familiares e uma conselheira tutelar que tinha relação com o jovem. Também foram feitos laudos periciais, incluindo exame do corpo e perícia no local.
Um relatório do Ibama citado pela decisão da juíza para basear o arquivamento apontou que o zoológico segue as normas de segurança exigida, tem muros de cerca de 8 metros e possui telas inclinadas para impedir invasões.
Devido esses apontamentos, a juíza não encontrou negligência da administração do local, tratadores ou do estado da Paraíba. A juíza ainda afirmou que caso surja novas provas relacionadas ao caso, o inquérito pode ser reaberto.
Relembre o caso
Homem é morto por leoa após entrar em recinto em zoológico de João Pessoa
Um vídeo mostra o momento em que Gerson entrou no recinto de uma leoa no zoológico Parque Arruda Câmara, neste domingo (30). O animal reage e o homem acaba morrendo em decorrência dos ferimentos. As imagens, que circulam nas redes sociais, registram inclusive o ataque do animal ao invasor.
No vídeo é possível observar Gerson subindo por uma estrutura lateral do recinto, e, em seguida, ele usa a árvore próxima ao espaço da leoa como apoio para entrar no local. Logo após, é atacado pelo animal.
De acordo com informações repassadas à TV Cabo Branco, ele tinha transtornos mentais. Em nota, a Prefeitura de João Pessoa informou que o homem escalou rapidamente uma parede de mais de 6 metros, passou pelas grades de segurança, usou uma árvore como apoio e entrou no recinto da leoa.
A prefeitura disse que já começou a apurar as circunstâncias do caso, manifestou solidariedade à família da vítima e afirmou que o espaço segue normas técnicas e de segurança.
A Polícia Militar e o Instituto de Polícia Científica da Paraíba (IPC) foram acionados para o local do ocorrido. O zoológico foi fechado após o ataque e as visitas foram suspensas. Ainda não há previsão para reabertura. No momento em que o homem entrou no recinto, o parque estava aberto e recebia visitantes.
Histórico de vulnerabilidade de Gerson
CASO GERSON: conselheira tutelar relata anos de acompanhamento do jovem
Gerson de Melo era conhecido nas ruas de João Pessoa. Em 24 de novembro, ele foi preso duas vezes em uma hora por danificar dois caixas eletrônicos e arremessar uma pedra em uma viatura da Polícia Militar.
Verônica Oliveira, conselheira tutelar que acompanhou Gerson, relatou que a mãe dele sofre de esquizofrenia grave e, por isso, ele e os quatro irmãos foram retirados dela pela Justiça. Os irmãos foram adotados, mas Gerson, que na época já apresentava sintomas de transtornos psiquiátricos, não conseguiu adoção e por isso ficou sob responsabilidade do Conselho Tutelar até atingir a maioridade.
“A mãe justamente perdeu o poder familiar dos cinco filhos, porque ela tem uma esquizofrenia bem grave. As duas avós também tinham problemas mentais. Gerson não tinha família extensa que pudesse cuidar dele”, comentou a conselheira tutelar.
A conselheira disse que a ausência de albergues na cidade contribuiu para a vulnerabilidade do rapaz. "Um albergue é o grande sonho do movimento [de conselheiros tutelares]. Já existem albergues assim em outros lugares do Brasil, onde se trabalha a autonomia e o acolhimento. Lá eles têm mais autonomia, têm um acompanhamento mais de perto. Não foi o caso de Gerson. Depois que ele fez 18 anos, ele foi entregue à própria sorte. Saiu do acolhimento institucional e entrou no sistema prisional", disse.
O laudo confirmando esquizofrenia só foi emitido depois que Gerson entrou no sistema socioeducativo. "A gente já sabia que era esquizofrenia, porque ele ouvia vozes. Só quando ele entrou no sistema socioeducativo que o laudo apareceu, mas aí já era tarde demais", completou.
Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba