Novo 'Resident Evil' acerta no terror e suspense, mas exagera no humor; g1 já viu
17/09/2026
(Foto: Reprodução) Adaptar games para o cinema ainda é um grande desafio para Hollywood porque muitos projetos do gênero se mostram bastante superficiais ou bem abaixo do que poderiam render com o material de origem. Felizmente, o novo 'Resident Evil', que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (17), se mostra uma exceção feita nos últimos anos por simplesmente fazer o que as versões anteriores do jogo não conseguiram: criar um bom espetáculo de terror que agrada até quem nunca passou horas e horas com um controle na mão diante da TV.
O reboot da franquia inspirada nos games da Capcom evita o caminho mais fácil. Em vez de reproduzir personagens e fases conhecidas sem personalidade, aposta em uma trama própria de sobrevivência angustiante e inesperada, que possui elementos reconhecíveis da série de games, que não são simples "perfumaria" e têm real função na história.
A trama é centrada em Bryan (Austin Abrams, de "A Hora do mal"), um jovem que trabalha fazendo entregas de materiais para hospitais. Uma noite, ele recebe a incumbência de levar um pacote misterioso para um hospital que fica em Racoon City. Só que, ao chegar à cidade, Bryan se vê no meio de situações bizarras, envolvendo pessoas (e até animais) contaminadas por um vírus que as transforma em ferozes criaturas mortas-vivas.
Assista ao trailer do filme "Resident Evil"
Sem qualquer ajuda do mundo exterior, o rapaz precisa lutar pela sua vida, ao mesmo tempo em que precisa fazer sua entrega e entender o que está acontecendo ao seu redor, antes que seja tarde demais.
Uma noite alucinante
O principal responsável pelo bom resultado de 'Resident Evil' é Zach Cregger. Conhecido por seus trabalhos em "Noites brutais" e, principalmente, "A Hora do mal", mostra que sabe criar boas cenas de terror e suspense, que pegam o espectador de surpresa quando faz os perigos surgirem de maneiras inesperadas, proporcionando bons sustos.
Além disso, Cregger desenvolve bem a sensação de medo e desconforto que seu protagonista sente ao se ver totalmente só e isolado diante de inimigos mortais e imprevisíveis. Só esse clima de insegurança que o diretor transmite para o público supera todas as outras versões dos jogos feitas anteriormente.
Bryan (Austin Abrams) tem que lidar com uma estranha passageira em 'Resident Evil'
Divulgação
Por isso, quem espera ver algo no estilo dos filmes feitos por Paul W. S. Anderson (estrelados por sua esposa, Milla Jovovich), ou mesmo do fracassado "Resident Evil: Bem-vindo a Racoon City", de 2021, vai descobrir que a proposta não é (ainda bem) essa. No novo longa, saem as lutas estilizadas e os zumbis pouco ameaçadores para darem lugar a um clima sufocante e monstros realmente ameaçadores, criados com bons e convincentes efeitos especiais. Algo que muitos fãs dos games sempre quis ver no cinema.
Outro ponto positivo do filme é que Cregger dirige algumas cenas que dão a real sensação de que o espectador está diante de uma real transposição dos jogos para o cinema. Mesmo sem contar com personagens marcantes da franquia da Capcon, é possível notar a preocupação de fazer movimentos de câmera e dos atores ficarem bastante semelhantes ao que é visto nos games.
Um exemplo disso são as sequências em primeira pessoa, em que tanto o protagonista quanto o público precisam prestar atenção ao que está ao seu redor para saber como sair de situações perigosas. Isso ajuda a dar o clima tenso que os bons jogos da série conseguem proporcionar.
Bryan (Austin Abrams) precisa escapar de um ataque zumbi numa cena de 'Resident Evil'
Divulgação
Riso frouxo
Mesmo com tantas qualidades, o novo 'Resident Evil' tem uma falha que quase compromete todo o projeto. É que Cregger, que também escreveu o roteiro ao lado de Shay Haten (roteirista das partes 3 e 4 de "John Wick"), colocou piadas demais na sua história, o que causa um certo incômodo ao tentar diminuir o clima de tensão que permeia o filme. Assim, o espectador pode se pegar rindo em momentos inesperados, quando deveria estar sentindo medo ou nervosismo.
Pelo menos, o humor (que era ainda mais presente em versões anteriores do filme, e foi amenizado após sessões-teste) serve para mostrar a versatilidade de Austin Abrams, que se sai bem tanto nos momentos cômicos quanto nos mais dramáticos.
O ator, que já tinha chamado a atenção em "A hora do mal", como um bandido viciado em drogas, encara bem o desafio de estrelar um filme em que passa boa parte da trama praticamente sozinho e precisa manter o interesse do público pela sua luta pela sobrevivência. Se ele fosse um ator menos talentoso, poderia não despertar interesse e preocupação pelo destino do personagem. Abrams transmite emoção com eficiência e tende a gerar empatia junto ao espectador.
Bryan (Austin Abrams) enfrenta perigosas ameaças em 'Resident Evil'
Divulgação
Ele também tem espaço para demonstrar que tem uma boa veia dramática. E o melhor exemplo disso está numa cena em que decide enviar uma mensagem para a namorada, que está longe de Racoon City. Nessa sequência, Abrams consegue emocionar na dose certa.
O restante do elenco, pouco conhecido, não tem grandes destaques de atuação. Apenas uma participação de Paul Walter Hauser ("O Caso Richard Jewell") chama a atenção na trama, mas não chega a ser muito relevante.
Com um final inesperado, 'Resident Evil' consegue seu objetivo de se reinventar no cinema e renovar o fascínio que tanto os fãs de filmes e de games têm pela franquia, além de reforçar a impressão de que Zach Cregger tem potencial para construir uma carreira consistente no gênero. Em entrevistas, ele já disse que esse é o seu primeiro e último longa numa marca consagrada devido à pressão dos fãs. Mas se ele mudar de ideia e voltar a comandar mais episódios desse universo, não seria de todo ruim.
Cartela resenha crítica g1
Arte/g1